quarta-feira, 15 de setembro de 2010

1:15 da manhã. Me sinto sozinho. Sinto novamente minha vida suspensa. Reflito. Penso. Tão frio que não consigo nem me comover com meus erros. Meus demônios me derrubaram denovo. Foi a gilhotina para completar o quadro dantesco de sempre.
Recuei em mim mesmo. Me ausentei do mundo, e da minha casca. Fui buscar refúgio no inatingível. E de lá vi as teias que movem minha vida. O amor por uma mãe amorosa, guerreira, indescritível. Uma imagem que dou vida em alguns feriados do ano. O respeito por um pai vivido, companheiro. Mas com quem não posso compartilhar a boa nova do Espírito. Um irmão de personalidade, de sangue e de cérebro, mas 800km e um instinto kamikaze nos separam. Um outro irmão de sangue, de personalidade, cérebro e Espírito, e ainda assim o Ego nos separa.
A vida em si mesmo é um engano. Quem dirá quando passarem os anos. Nos iludimos com uma segurança que não existe. Existe para os cegos. Somente para eles. Aqueles que procuram a Luz... Esses sabem a dor de sair do conforto da ilusão, encontrar-se só em si, voltado ao inefável, e ainda assim não ver nada. E ainda assim ver Trevas.
Já encontrei o Caminho Secreto. Já encontrei o Tubo do Tao. Rio maravilhoso. Mas meu orgulho, minha ira, e tudo que me faz ser o mendigo que sou, me lembram de voltar para a visão mórbida do mundo. Me lembram o quão escroto me encontro. E dessa casca não se livra tão facilmente.... São raízes profundas, enterradas na nona esfera do Inferno.
Rezo aos céus por uma resposta. E sou ouvido. Um misero demônio. Um verme. Mas sou ouvido. Me mandam a Bússola. Me mandam o Mapa. O destino é o próprio inferno: tenho que me livrar de vez de toda minha escrotidão.
Me sinto sozinho. Com medo. Entrando a primeira vez na Selva Escura do Mim Mesmo. Meus defeitos se mostram maior do que eu imaginava. Meus Pecados cravaram corrente na minha carne. Oro novamente. Peço misericórdia. E os Céus, de tão Inefáveis, de tao Limpos, Amorosos, me ouvem mais uma vez. Numa mesma correspondência me mandam Amor e Espada. Amor de uma maneira que poemas de Drummond não descreveria. Espada Sagrada, de Fogo, que queimará minhas correntes.E o que faço EU? Trago do Inferno meus demônios, para beber e gozar.
Ou se é Todo Vontade, ou se fracassa. Abandono hoje os conceitos. Abandono hoje as convenções morais, sociais. Abandono hoje família e amigos. O Caminho é o do Imutável. Cascas são manifestações cinzas. Nada mais.

sábado, 8 de maio de 2010

A Negação ao Sim

Devíamos voltar o tempo. Para que os homens que perderam suas vidas na guerra pudessem vivê-las. Para passarmos uma tarde inteira com aqueles que partiram sem se despedir. Para que voltássemos atrás em certas escolhas. Para vivermos denovo aquele momento que deveria ser eterno... Tudo exatamente como foi naquele dia...
Mas então, perceberíamos que nós estaríamos diferentes. E entenderíamos que a Imagem da nossa conceitual felicidade, de nada vale. Que o que dá vida aos lugares que conhecemos, às pessoas que amamos, são os valores internos que nós vivenciamos, ao compartilhar aquelas experiências. Que o que nossos precários sentidos nos mostram, é a casca do coração. É a projeção dos nossos valores anímicos; dos nossos medos, dos nossos anseios, do nosso amor.
Nessa época do anti-cristo, a ciência materialista, nós não dos damos conta dos valores que carregamos em nós mesmos. Achamos que o dinheiro vai tirar nossa infelicidade. Que uma companheira mais bonita vai nos deixar mais 'pra cima'. E de festa em festa vamos carregando nossas doenças psicológicas, tentando jogar areia em cima dessas sutis energias que formam a mente.
E espantosamente, vivemos tão pouco no mundo externo. Não sabemos os lugares por onde passamos ao ir para o trabalho. Se nos fosse dado uma folha para desenhar nosso próprio quarto, não conseguiríamos desenhar nada além da cama. Se vamos à um evento, somos rudes e não sabemos. Somos soberbos e não percebemos. Mas onde fica então o ser humano, que não conhece nem a si mesmo, e tão pouco a realidade a sua volta? Ficou em casa dormindo? Mas há tantas pessoas em atividade nas ruas...
Experimente parar em um ponto de ônibus, e observar as pessoas que passam, nem que seja por 15 minutos. Dão risada sozinhas, outras tropeçam em obstáculos óbvios, algumas até resmungam uma conversa interna. Dia após dia, hora após hora, de minuto em minuto, o macaco intelectual se fecha em seu cárcere mental para acertar as contas com o mundo. Ali somos o mártir, a pobre ovelha mansa mal compreendida. Fazemos discurso sobre a injustiça cometida sobre nós, e damos verdadeiras lições de moral nos vilões que nos repudiam. Criamos justificativas das mais variadas para que a situação seja vista do nosso ponto de vista. Ou então simplesmente vamos curtir um pouco das nossas qualidades que geralmente as pessoas não vêem. Vamos dar um show de piadas engraçadas, ou um discurso inteligente sobre a sociedade atual, ou algumas palavras humildes de um homem que se preocupa com os desabrigados e famintos, etc, etc.
O que esperar de uma pessoa que vive 20% da realidade? E estou sendo otimista. Nem os sonhos tem mais valor. Foram esmagados por um comercial de TV e todos os outros lixos visuais que se repetem em nossa cabeça. Há médicos que queriam ser músicos, advogados que queriam ser fazendeiros e farmacêuticos que queriam ser turismólogos. E estou falando dos sonhos, algo que em si já é uma projeção.
Há muita informação e pouca vida. Muita ilusão e pouco mundo. Já não olhamos as estrelas, não respiramos profundamente o ar. Temos medo de andar num píer, mesmo sabendo nadar. Estamos engessados em nossos conceitos, sem fé nem para levantar da cama. Só o fazemos porque é seguro. Somos um ponto no infinito, e achamos que podemos domar a vida arrumando empregos estáveis, planos de saúde, esposas com quem contar. E vamos nos arrastando nessa busca pela felicidade, embriagados de televisão, de bares e conversas sem fundamento, de sexo sem estima, que termina no ponto onde começou. Vamos suportando o dia a dia alimentando nossos doentes pensamentos narcisistas, engordando as cenas dantescas do nosso egoísmo.
Buddha disse que um homem é resultado de seus pensamentos. E sabemos que a sociedade é o resultado dos homens que nela habitam. E pode-se dizer que a nossa não anda muito bem. O ponto é que estamos esquecendo de algo fundamental: a Eternidade. E não me refiro à eternidade lá no reino de Deus, que o pastor falou lá na igreja. Refiro-me à Eternidade do Momento. Ora, se analisarmos alguns segundos, veremos que o tempo não existe. Einstein nos mostrou brilhantemente que o tempo, na realidade, é curvo. O sol volta todos os dias, a lua volta todos os dias. As estações voltam, a Terra em seu movimento de translação volta a um ponto em que já esteve. E o que o humano, que se diz tão no controle, faz? A mesma coisa... As sociedades evoluem, para involuirem. Os homens nascem para depois morrerem...É preciso quebrar a mecânica.
Estamos em um momente presente, eterno, onde as coisas se transformam: uma sucessão de eventos. E é nele que devemos fazer morada. O que espera um homem que almeja seu lugar ao céu, na vida eterna, se o seu pensamento está fragmento ou no passado ou no futuro? É no momento presente que beijamos o pé do Pai. É no momento presente que vemos a Vida florescer. No momento que adquirimos clareza para enxergar as coisas como elas são, sem o filtro da mente, dos conceitos, dos dogmas. No presente que experimentamos a Verdade. É preciso passarmos a viver cientes do mundo, cientes de nós mesmos, de nossas ações e nossas atitudes. É preciso criarmos um senso de observação e de auto-observação. Então entenderemos o quão belo é o mundo, e o quão dantesca é nossa psiquê. Entenderemos que o que está dentro é como o que está fora, e o que está em cima é como o que está embaixo, pois a raiz de tudo é o Ser, e o Ser tudo permeia, tudo habita. O Ser é o eterno 'sim!' que nós negamos a todo momento. O Ser é a Eternidade que tanto nos dá medo, que faz com que busquemos tantos refúgios. Mas te digo, caro leitor, que não há refúgio maior do que não ter nada seu. Do que crepitar junto com essa chama de Luz Divina, nascendo a todo instante. Novo a todo instante. Essa é a resposta, esse é o caminho e a lei: "Aquele que dá, recebe, e quem mais dá, mais recebe. E aquele que não dá, até o que tem lhe será tirado".

terça-feira, 20 de abril de 2010

O Justo Amor

O Amor verdadeiro tem que ser criado dentro de nós. É uma propriedade, um valor. É impessoal, indiferente das características da pessoa a quem se dirige. É cego. Se nós amássemos alguem por merito, como na realidade fazemos, o mundo estaria em colapso, como na realidade está. É a falta do verdadeiro Amor que deixou a vida amarga e a insanidade do homem como algo natural.
Mas como então, criar esse amor pelos outros, desinteressado e generoso, se ninguém à nossa volta é digno dele? Como amar o orgulhoso que conta suas façanhas? O invejoso que comenta nossa vida com ar sarcástico? O interesseiro que se farta em nossa mesa, o soberbo que não ouve quando falamos, o ranzinza que reclama dia após dia de sua terrível esposa, etc. etc. Pobre de nós, pessoas sinceras, que pagamos tudo em dia e queremos dar amor às pessoas, ajudá-las, e não conseguimos, tamanha sua malvadeza... "De equivocados sinceros o inferno está cheio" dizia Mestre Samael. Quão mansos nos achamos. Acreditamos sermos santos, e nunca se quer questionamos o porquê de que, quando esticamos os braços, vemos pele de lobo sobre ele. Dia após dia, a dona de casa que passou a vida inteira passando roupa em frente à tv, reclama de seus filhos sem iniciativa. Dia após dia, a mulher luxuriosa do bairro reclama por não encontrar seu príncipe encantado. Ora, não há espelho mais polido do que a realidade. Acharemos sempre as prostitutas nos prostíbulos, os viciados nos bares, os gananciosos em seus palácios de luxo, com medo de perder seus ricos bens, etc. etc.
Somos uma bola de espinhos, reclamando que as outras pessoas nos espetam aqui e ali. Apontamos escandalosamente quando nos ferem, mas quando ferimos alguém, rapidamente pomos um véu nos olhos. Como quer o homem então, apartar-se do mal, se não o olha de frente? É só quando se entende por inteiro um problema, que podemos resolvê-lo. A compreensão é a chave do cadeado que prende as correntes psicológicas que arrastamos pela vida. É a compreensão que mostrarão que nossos defeitos psicológicos assim como foram adquiridos, nessa ou noutra vida, também podem ser deixados pra trás.
Mas só enxergamos as coisas como bem convém... Sempre vemos nas pessoas os defeitos do passado, atuais, ou então tratamos de criar algum em nossa mente, onde sempre encenamos o puro, o justo e amável sofredor, e o fulano é o vilão, o tirano que não nos compreende...E vamos arrastando assim, nesse cárcere interno, nossos pecados e as desculpas que os justificam. Pisamos em um aqui, subimos noutro ali, e quando nos é cômodo, sem que haja muito esforço, ajudamos alguém. E lamentavelmente, achamos que triunfar na vida, externamente, é o importante. Enquanto os problemas se arrastam da favela, ao condomínio, à casa na praia, ao palacete onde muitos milionários se suicidam.
Quando terá fim, essa tragedia humana? Quando esses ciclos viciosos de humilhações e satisfações momentâneas será encerrado? O homem esqueceu o princípio básico das religiões, e da felicidade, de um modo geral. Sacrifício, que significa sacro ofício, ofício sagrado, é uma palavra que não entra mais nos livros da moda, nas aulas de literatura ou nos assuntos nos barzinhos. Um sujeito pobre, que tem um trabalho árduo, sabe o quanto é gratificante ver um trabalho suado, terminado e bem feito. Nesses momentos amigo, até o camarada que joga golfe bebendo champagne invejaria esse pobre trabalhador. Todo religioso que se preze, da verdadeira religião, que significa religare, ligar-se novamente à Deus, sabe o valor do sacríficio. Todo santo sabe, que entre ele e o mentecapto que ele havia sido lá atrás, há um caminho estreito e suado. Jesus disse: "Negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me." Onde está o sacrifício nas pessoas de hoje? A mulher reclama se o marido pede a cerveja que está na geladeira e o marido reclama se a mulher pede pra jogar o lixo lá fora. Se você pedir um favor que tenha que fazer realmente um esforço então... As desculpas aparecem e as pessoas somem. Ora, que progresso interior, irá fazer então, essas pessoas? "Entender os meus defeitos? pff, outro dia eu vejo isso." E lá se vai pra frente da tv.
Mas o Amor verdadeiro, é sacríficio. Isso é amor. Abdico de mim para me dedicar à você. Se não, como seria verificado? Como provaríamos as virtudes se não testando-as? O Amor é a única forma de matarmos nossa maléfica psiquê. Nossa psicologia transfigurada, que sabe amar só a si mesma, e se torna cada vez mais e mais doentia... O Amor verdadeiro é o fogo que crepita a todo instante, e queima as amarras dos caixotes da mente. Fogo que desapega-se a todo instante, dá a si mesmo a todo instante, perdoa a todo instante, nasce a todo instante. Que não depende de cor e forma para amar; ele é um valor. É o fim e a causa nele mesmo. Não tem nada seu, e só por isso pode realizar o que é seu, parafraseando Lao-tse. É a única saída para nós, envoltos em sombras, em pesadelos. É a única entrada para a Real felicidade. Para a Vida Real.

domingo, 18 de abril de 2010

O Rio Que Corre

Ora, maldito seja o cérebro em mau uso. Quantas viagens uma pessoa tem que fazer para parar de pensar? Quantas vezes teria que bater o carro, sentir o coração parar, ou vomitar e estremecer por um simples tomate, para entender que estamos num palco? Quantas arestas teremos que chutar, até entender que não se deve construir arestas? Quantas estações da vida passarão, até entendermos que os personagens desta trama cósmica são meros fantoches na mão do Ser? Por quanto tempo mais sentiremos medo da decisão do patrão? Por quanto mais tempo sentiremos tesão na trepada na garçonete, no banheiro do boteco? Até quando se encheremos de orgulho depois de um comentário inteligente na seção seis da repartição? E ironicamente, esses 'sábios', esses 'donos da verdade', riem dos verdadeiros Deuses, dos verdadeiros Libertos. Dos pobres de riquezas, nulos de si mesmos, que fluíram no Rio da Vida, e ainda tiveram a compaixão de voltar para nos mostrar o caminho para os outros reinos da existência.
Sábio quem disse que o homem está pescando peixes, sentado em cima de uma baleia. Abençoado sejam os de compaixão eterna, que voltaram para nos dar a mensagem.

A Descoberta do Fogo

O que define uma pessoa? Alguns diriam que são seus ideias, seus sonhos, impusionando-a. A maneira como se porta, talvez? Sua aparência, a região de onde veio, os costumes? Sua carreira acadêmica, seu dinamismo intelectual?
Mas infelizmente, essas idéias são muitos superficiais. Sempre podemos vê-las atuando. Sempre acreditei que havia algo a mais. Eu sempre soube na realidade, que algo que se escondia, algo estava por fora, ou talvez muito por dentro, de tudo que conhecemos. Muitas vezes, eu saia do mundo, e o via como um véu, como um quadro colorido com vida. Ah! Tamanha vontade de rasgá-lo! Rasgá-lo e ver o eterno aflorar de seu interior.
Mas esses questionamentos não estão na vida corriqueira. Por algumas vezes até tentei tirar alguma coisa das pessoas, mas elas estavam sempre dormindo, conformadas com o véu que as havia moldado. Contentei-me então em viajar no meu imaginário, matando sozinho a saudade do desconhecido. Mas o Deus Vivo é tão maravilhoso que tratou de me deixar intacto. Sempre que o mar arrebatador da vida ameaçava me levar, eu acabava me recolhendo, conscientemente ou não. E assim esperei. Sem ir muito longe da minha criança.
Até que do Espírito inocente, da magia elemental do Deus-Natureza, me foi dada a resposta. Num humilde cálice onde os morimbundos afogam seu vazio buscador, me foi dada a chave que propulsionaria o começo de minha viagem.
Ah! Quão maravilhosa foi a dor do entendimento. Como uma criança que chuta uma caixa, a eternidade chutou todos os meus conceitos para os rídiculos eixos da razão egóica. Fiquei nu, e minha solitude que antes se achava engarrafa nos pequenos prazeres da mente, tomou o infinito do meu Ser. Quão ínfimo é o mundo corriqueiro perto do Eterno. E quão dolorosa é a existência que não se veste da Luz. Que não se faz presente na corrente do amor, do amor sincero, pra fora.
Meu jarro estava vazio. Eu que procurava a doutrina secreta dos Mestres, que aspirava conhecer os segredos da Literatura, que julgava meu anseio tao superior aos outros, tinha tido meus encontros com Deus em amizades de adolescente, num país de terceiro mundo. Pude ver então como desgraçados são os conceitos da mente, sempre sustentados em auto-simpatias e meias verdades, e como podre é a carne, ôca, se não acesa por dentro pela Luz da Eterna Vida.
Definir o mundo, viver a capa da existência, é deixar-se levar pela Inconsciência, pela ilusão do fazer, é "Tresloucar no azar". Abraçar o momento, transbordar a energia da criação, insulflar os pulmões e os olhos de pureza e sinceridade, é o sentido da vida. E sábio é aquele que vive nos dois mundos, abstendo-se do externo, e nascendo constantemente no interno.